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Delicadeza

 

 

Elane Tomich

Quando nada mais significa
Aquele zombar da dor
Em alguma palavra fácil,
Na gente o que é que fica?
Em meio ao não entendimento
Fica uma ironia ágil
Varrendo qualquer sentimento...
Fica o medo, muito medo
De se ouvir falar de amor
Com toques de vulgaridade.
O medo de acordar cedo
Para um nova inverdade,
Na mesma voz repetida...
Meu amor será sagrado!
Será preservado em vida...
O outro, o amor penhorado,
Melhor não ser resgatado.
Nem precisa ser negado
O que não chegou a ser.

A gente pode conviver,
Em prol da civilidade
E até ter certo prazer
Em dizer futilidades
Mas falar em vão de amor,
Não!... Tenhamos a grandeza!
Pelo futuro do mundo!
Pior que alma ferida,
Ainda que por um segundo,
É ver que foi suprimida
Do peito, a delicadeza!

 

 

MEIO FIO


ElaneTomich


 

Deitada no meio fio
tinha sonhos de viver
numa trilha sem desvios
vendo o filho acontecer.
 
Torto era que passava
contorcionistas do olhar
na frieza  que encurtava.
a  precisão de encontrar
 
talvez o atalho da volta
o tear do fio inteiro
no meio fio, a revolta
não teceria janeiro.
 
A seca doía deveras
mas pior era sentir
molhada, mofada, quimera
lágrima fiada em pedir
 
Uns merréis  grudou na marra
o filho ia  viver...
As mãos com jeito de garra
deram à alma o de beber.
 
Lume quase sem pavio
melhor era desviver
por um fio, em meio fio
foi com o sol adormecer.

 

 

Belo Horizonte

Elane Tomich


Embrenho-me na clausura
em meio à multidão.
Minha prece é correria,
espanto é meditação.
A vida em mim exercita
a dúvida da contrição.
A oração inaugura
saudade que se apura
no centro do coração
da Praça da Liberdade.
Breve dor me acena
do ônibus que vem de Piedade.
No peito o ato que encena
o drama da Afonso Pena.
Procuro pela magia
que minha mãe me ensinou.
Em Lourdes, choro em capela
um sonho que derramou,
filho dos sonhos dela.
A Igreja está lotada
a calçada grafitada.
O presente não permite
a fé que o passado insiste
Abandono meus achados
À sombra, lembrança é pecado.
Alegra-me o medo devasso
que da infância trago escasso,
de Nosso Senhor dos Passos.
O ar repleto de ondes,
mata qualquer referência
do que me foi preferência.
Perdida por essas vias
o clima tem cheiro de fontes
A cidade onde nasci
já não mora mais aqui.
É outro belo horizonte...

 

Elane Tomich
BH 02/2003

Brasil